Arqueologia virtual

Uma das grandes alegrias da internet para mim é poder desenterrar os registros do passado recente. Sem a internet, qual seria a minha chance de, por exemplo, encontrar artigos da seção de saúde da edição de Novembro de 1992 do The New York Times? Quase nulas, por certo, haja vista que só encontrei o artigo de que logo irei tratar porque estava intencionalmente vasculhando os arquivos do jornal em busca de matérias mais antigas sobre peso e obesidade.

E o artigo é divertido a mais não poder, pelo menos para mim. E muito especialmente nesse exato momento em que acabei de comer, lenta e prazerosamente, 300g de pão de nozes da marca do Olivier Anquier, acompanhados de um gorduroso, calórico e delicioso patê de gorgonzola.

Voltando. O título do artigo, da lavra de Jane E. Brody, é “For most trying to lose weight, dieting only makes things worse”. Em bom português, e na minha versão bem particular: “Para foder os outros existe o pinto; para se foder, as dietas”.

 Em seu artigo, Jane E. Brody, como um triturador desalmado, como um cantor de bar emitindo Djavan impiedosamente, castiga as dietas, quaisquer dietas, com uma avalanche de motivos pelos quais ninguém em sã consciência deveria segui-las: desde as estatísticas desanimadoras que apontam para o fracasso do regime e da dieta em promover uma perda de peso duradoura e sustentável até os tenebrosos efeitos que a própria perda de peso exerce sobre nossos metabolismos. Em determinada altura de seu artigo, quando os parágrafos começam a ficar curtos demais para a quantidade de estudiosos citados, Jane E. Brody traz este delicioso comentário proferido pelo dr. Schlundt (parece até nome de personagem!):

“As pessoas têm de encarar o fato de que mesmo que percam peso, elas continuarão a ser as mesmas pessoas, com os mesmos problemas”. 

É magnífico. Quase consigo imaginar um ranzinza dr. Schlundt, já meio puto por ter de responder as mesmas perguntas sobre peso e dieta há anos, dizendo aquilo que todos sabemos, por intuição, ser verdadeiro: que, depois de perder peso, uma pessoa desempregada e gorda pode bem tornar-se, afinal de contas, apenas uma pessoa desempregada e magra (e esse é o exemplo que o dr. Schlundt utiliza).

E então voltamos à questão do registro do passado recente, que às vezes parece tão remoto…o tom abusado dessa coluna publicada em 1992 no The New York Times, esse jeito quase desrespeitoso e petulante de falar da futilidade das tentativas de perda de peso, parece-me impensável nesses dias em que muitos provavelmente contemplam a perspectiva de engordar com mais pavor que a de desenvolver na bochecha um corpúsculo pegajoso com o formato e a voz do Genoíno (até com os pequenos pulsos cerrados e a voz esganiçada – trata-se de um homúnculo na bochecha, afinal – grunhindo, fininho, “viva o PT”).

E aliás: o que é – ou terá sido – feito de Jane E. Brody? Algo melhor, espero, do que, também espero, será feito da minha menção ao estridente corpúsculo daqui a 21 anos…

Anúncios

Quase Anoréxica?

Recentemente, a revista VEJA publicou uma matéria de capa sobre mulheres – claro! – que adotam padrões extremamente rígidos de alimentação e atividade física para ficar com o corpo definido, musculoso, torneado e praticamente sem gordura. A matéria deixa claro, logo de plano, que não se trata de anoréxicas ou de pessoas com transtornos alimentares: essas mulheres comem, e comem bem, mas optam por alimentos saudáveis, possuem uma rotina exigente de exercícios e controlam de perto, com o zoom no nível máximo, a quantidade de calorias ingeridas.

Moral da história: sinta-se um lixo consigo mesma, leitora, pois você dificilmente terá a combinação ideal de recursos financeiros, mentais e genéticos para atingir um corpo daqueles. E se sentindo um lixo consigo mesma, você terá bastante incentivo para tentar novas dietas, comprar novos produtos dietéticos, ler mais revistas de saúde e adotar as mais novas modas no campo das atividades físicas (spinning, high-intensity interval training…).

Até aí, nada que não vejamos toda semana em alguma das várias revistas dedicadas à tortura impiedosa dos corpos e mentes femininos. De fato, a mídia está para o corpo e a mente das mulheres assim como a Inquisição para os hereges (ou, mais recentemente, assim como a administração George W. Bush para os suspeitos de terrorismo…).

O curioso da matéria da revista VEJA, porém, é que lá pelas tantas, depois de relatar as peripécias das artistas de si mesmas que conseguem esculpir corpos simultaneamente magros e musculosos sem deixar de comer e sem vomitar o que comeram, faz-se menção a um livro chamado “Almost Anorexic” (Quase Anoréxica), de autoria de Jennifer Thomas, professora-assistente de Psicologia no Departamento de Psiquiatria da Universidade de Harvard.

O livro é resumido em algumas poucas linhas na matéria, e o leitor fica com a nítida sensação de que ele trata do mesmo fenômeno abordado pela revista: as mulheres saudáveis, musculosas e lindas que adotam um estilo de vida tão rigoroso no tocante à alimentação e aos exercícios que por pouco não podem ser chamadas de anoréxicas. Em outras palavras: fica-se com a impressão de que ser quase anoréxica é bom, de que é possível beirar a patologia mantendo a saúde, como um equilibrista na corda bamba.

O único problema é que a impressão que a matéria deixou para mim e que deve ter deixado para muitos outros está completamente equivocada. O fenômeno descrito por Jennifer Thomas em seu livro “Almost Anorexic” não tem nada de belo, requintado e…musculoso. Pelo contrário. Os sujeitos (quase escrevo os objetos…) de estudo da professora americana são pessoas que possuem, sim, patologias mentais sérias e que precisam de ajuda profissional urgente (o livro é, aliás, escrito em coautoria com uma anoréxica recuperada). Trata-se das mulheres e homens que sofrem de distúrbios alimentares graves, potencialmente letais, mas que escapam do diagnóstico de bulimia e anorexia por não terem um índice de massa corporal suficientemente baixo. O que a pesquisadora americana descreve não é um estilo de vida radical, como aquele das lindas mulheres que protagonizam a matéria da VEJA, mas um padrão doentio de comportamento em relação à comida e à atividade física que corre o preocupante risco de passar despercebido porque o doente não é magro o suficiente para chamar a atenção dos pais, amigos e profissionais da saúde.

Também recentemente, a dra. Leslie A. Sim, pesquisadora da Mayo Clinic, coordenou um estudo que revela a existência de adolescentes com excesso de peso ou obesos que, a não ser pelo índice de massa corporal, enquadram-se à perfeição nos diagnósticos de anorexia e de bulimia, estando sujeitos aos mesmíssimos riscos que os anoréxicos emaciados.

Confiram um vídeo da professora explicando o seu livro:

http://www.youtube.com/watch?v=DRCZw6qaDjA

Que não haja dúvida: os quase-anoréxicos de Jennifer Thomas e os anoréxicos obesos da dra. Leslie A. Sim são, para todos os efeitos, inclusive no tocante aos riscos à saúde física e mental, verdadeiros anoréxicos, e assim devem ser tratados. Não se trata do mais novo estilo de vida desenterrado pelas ricas, chiques e musculosas: estas não são doentes, mas apenas dispõem de tempo, dinheiro, motivação e predisposição genética adequados para atingir um tipo de corpo que as diferencie ainda mais da maioria da população: meio pobre, estressada, sem lugar nem cabeça para se exercitar, quase sempre presa em contextos alimentares nocivos e, claro, cada vez mais gorda.